Por Monique Prada
Publicado originalmente no site da Mídia Ninja. Íntegra aqui. Leia um trecho a seguir.
Uma homenagem merecida na maior festa do planeta: a Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra vem para o Carnaval de 2026 com um enredo corajoso, político e necessário, que fala de uma categoria laboral muito presente na nossa sociedade há séculos, mas que nunca está no centro das narrativas: as trabalhadoras do prazer.
A escola de São Gonçalo escolheu contar essa trajetória através dos séculos — das cortes antigas às zonas portuárias, dos cabarés às esquinas digitais — e não de modo caricato, vitimista ou estereotipado, mas mostrando quem elas de fato são: parte da história, da economia e da cultura deste país.
Tigresa que mata um leão por dia — o samba fala de trabalho, sobrevivência e autonomia. Fala de mulheres que são chefes de família e seguram, com dignidade, o lugar que lhes coube por destino, necessidade e escolha. E que, mesmo assim, seguem sendo perseguidas, estigmatizadas e empurradas para o silêncio e a clandestinidade através dos séculos. Em 2026, o trabalho sexual está nos aplicativos, nos sites, nas esquinas, mas o estigma continua o mesmo.
Quando a bateria entrar, entrará levando um manifesto de memória e dignidade.
Carnaval também é disputa de narrativa. Trabalho, desejo, moral, hipocrisia e sobrevivência vão cruzar a Sapucaí este ano.
Monique Prada é trabalhadora sexual, feminista, ativista pelos direitos das prostitutas. É também coeditora do projeto Mundo Invisível, colunista do Midia Ninja e uma das fundadoras da CUTS - Central Única de Trabalhadoras e Trabalhadores Sexuais. Hoje faz parte do Grupo Assessor da Sociedade Civil de ONU Mulheres no Brasil.
