Marie Duval: A Pioneira que desapareceu das histórias dos gibis

Atriz e quadrinista francesa radicada na Inglaterra, Marie Duval criou um dos maiores sucessos nos quadrinhos no século XIX. Mas, por mais de cem anos, sua existência foi ignorada pelas enciclopédias e histórias dos gibis
4 de março de 2025 por
Marie Duval: A Pioneira que desapareceu das histórias dos gibis
Editora Veneta

Trecho do livro Imageria, de Rogério de Campos. 


Jack Sheppard tenta escapar da forca pulando do cadafalso, mas sua arma dispara acidentalmente,

acertando o próprio rosto. O herói cai, ferido. E, pior, na queda machuca seriamente a

própria perna em uma barra de ferro. A plateia está surpresa: todos em Londres, naquele ano de

1874, conhecem a história do legendário ladrão Jack Sheppard, dos diversos folhetins, romances

e também da versão ilustrada por George Cruikshank, na qual se baseia a peça que está sendo

encenada. Então todos sabem que aconteceu algo de errado na apresentação.


A peça é interrompida, e os membros da trupe correm para o centro do palco, onde está

caída a pessoa que faz o papel de Sheppard. Não é um ator, mas uma atriz: a francesa Isabelle

Émilie de Tessier. Ela tem 24 anos. Chegou à Inglaterra aos dezessete, para trabalhar como

governanta, mas há tempos atua em teatros de Londres e do interior do país. Émilie de Tessier

é levada para o cirurgião. “Ela resistiu à operação com bravura, como Jack teria feito”, conta

um colega de palco. Tessier é salva, mas sua carreira de atriz terminou. A partir de então, ela

vai se dedicar apenas à sua outra carreira — a de desenhista, na qual já faz bastante sucesso.

Dois anos depois do acidente, quando Tessier é entrevistada por Ellen Clayton para um

artigo a respeito de artistas inglesas, “ela já tem trabalhos publicados em três ou quatro revistas

inglesas, francesas e alemãs, e ilustrou vários livros infantis sob diferentes pseudônimos”.

O mais famoso desses pseudônimos é Marie Duval, com o qual se tornou a principal desenhista

da revista Judy — concorrente da famosa Punch — e provavelmente o único caso de mulher

quadrinista de sucesso no século XIX.


Outro nome com o qual Tessier/Duval assinou alguns de seus primeiros trabalhos é o

de seu marido, Charles Henry Ross. Afinal, não ficava bem uma mulher desenhar cartuns e

quadrinhos (isso só foi mudar totalmente em... hum...). Mesmo a feminista Ellen Clayton se

incomoda, escreve que o “desenho” — assim mesmo, entre aspas — de Duval é “humorístico”,

algo que Clayton coloca como característica masculina, contraposta a uma forma mais sutil

de humor feminino, a ponto de ser “grotesco” e tão claramente “incorreto” que só pode ser

perdoado se levarmos em conta que Duval aprendeu a desenhar sozinha. A desenhista era, na

opinião de David Kunzle, muito moderna para a época e desenvolveu efeitos gráficos que só se

tornariam comuns décadas depois.


Seja como for, as primeiras aventuras do personagem Ally Sloper são assinadas apenas

com o nome de Ross, talvez porque, de fato, ele tenha inventado ou ajudado a criar o personagem.

Depois passa a levar o nome dele e também o de Duval e, por fim, a partir de determinado

ponto, só ela assina.


Ally Sloper é um cachaceiro, que tenta manter a pose enquanto foge dos credores. O

sucesso da HQ foi estrondoso e deu origem ao primeiro caso de personagem dos quadrinhos

em torno do qual se criou uma indústria de licenciamento, com brinquedos, relógios, bebidas,

guarda-chuvas, produtos alimentares etc. Ally Sloper ganhou até um gibi semanal próprio.


Mas a empresa que publicava a revista Judy e o gibi de Ally Sloper acabou tomando posse

do personagem. Marie Duval foi substituída por outros quadrinistas. E, durante mais de um

século, os livros e enciclopédias de maneira geral ignoraram sua existência. Alguns chegaram mesmo a escrever que Marie Duval era pseudônimo de Charles H. Ross.



Marie Duval: A Pioneira que desapareceu das histórias dos gibis
Editora Veneta 4 de março de 2025
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